Pedro Moretti GuedesMemorial · 1935–2010
Biografia

Quem foi Pedro Moretti Guedes

Um retrato do médico, do professor, do nadador e do homem que dividia o mérito de um diagnóstico com a mãe do paciente.

Nome completo
Pedro Moretti Guedes
Nascimento
10 de setembro de 1935, Piracicaba, São Paulo
Pais
Maria Luiza Moretti Guedes e José Anthero Guedes
Formação
Medicina, Sorocaba, 1963 · Residência no Hospital das Clínicas
Registro
CRM-SP 12002
Falecimento
17 de fevereiro de 2010, Bragança Paulista, 74 anos
Piracicaba, 1935

Sexto filho de um ferroviário.

Pedro nasceu em 10 de setembro de 1935, em Piracicaba, no interior de São Paulo, segundo a memória da família. A certidão foi lavrada dezesseis dias depois no cartório do distrito do Bom Retiro, na capital, onde a família então morava, na Rua Anhaia, com o carimbo da Caixa dos Ferroviários Estaduais: o pai, José Anthero Guedes, trabalhava na Estrada de Ferro Sorocabana. A mãe, Maria Luiza Moretti, era filha de italianos.

Uma reportagem guardada pela família conta que eram dezesseis irmãos e que o pai insistia na educação dos filhos. Pedro foi o sexto. Foi batizado em 1936, no colo da madrinha Georgina, e um retrato de criança, com suspensórios e franja, abre a folha em que a família resumiu sua vida.

Juventude

Farda, piscina e o caminho até a Medicina.

Antes da faculdade, Pedro passou pelo CPOR, o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva. A foto da formatura, fardado ao lado da mãe, é uma das mais antigas do acervo. Outro documento da época o descreve como aluno do segundo ano do curso de Intendência.

Foi também nesses anos que a natação entrou na vida dele. Uma fotografia o mostra jovem na borda de uma piscina com três amigos. Décadas depois, ele assinaria textos sobre a modalidade como técnico e membro do Conselho Técnico da Federação Paulista de Natação.

Formou-se em Medicina em Sorocaba, em 1963. Seguiu para São Paulo para a residência no Hospital das Clínicas e trabalhou cerca de três anos no SAMDU, o serviço público de atendimento domiciliar de urgência.

O jeito de exercer Medicina

Os documentos mostram um profissional difícil de reduzir a uma única especialidade. Pedro aparece como médico clínico, cirurgião de adultos e crianças, médico de família, professor de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Abdominal na Universidade São Francisco, autor de artigos e observador atento da estrutura de saúde brasileira.

Nos relatos, há um padrão. Ele valorizava o exame clínico, o tempo de escuta e a responsabilidade do médico diante da confiança do paciente. Mesmo quando contava um acerto de diagnóstico, fazia isso para falar de atenção e humildade. Quando disseram que ele havia diagnosticado uma meningite difícil, respondeu que quem o alertara para a gravidade fora a mãe da criança.

Uma homenagem escrita por pacientes resume o consultório: ele mesmo vinha receber cada pessoa na porta, com um abraço; atendia ao som de música clássica; oferecia café ou chá; e "às vezes nem precisávamos de remédio, só a sua atenção e palavras já nos curavam".

“O médico tem que ter consciência, porque a confiança do paciente nele é infinita.”

Pedro Moretti Guedes, em reportagem preservada no acervo

Medicina sem preço

A parte da história que a família mais faz questão de contar não está em nenhum diploma. Quando uma pessoa sem condições chegava à clínica, Pedro atendia com o mesmo cuidado que dedicava a quem pagava, e não cobrava nada. A consulta particular não era barata; para ele, isso nunca foi motivo para deixar alguém sem atendimento.

Nas reminiscências, o episódio da mulher que trazia o filho ao consultório e nem sempre pagava termina com uma frase, não com uma cobrança: "Você não sabe da vida dela, então não a critique." Na homenagem de 2010, os pacientes escreveram que ele "não se importava com a classe alta ou baixa; o importante era a recuperação do paciente".

Pedro nunca ligou para dinheiro. Ligou para as pessoas, para o bem-estar e para o cuidado. Exercer a Medicina, para ele, era isso. É o traço que o filho, Felipe, diz carregar dentro de si.

Campo Limpo, 1967–2010

O consultório onde mais gostava de estar.

Em 1967, Pedro instalou-se no Campo Limpo, na zona sul de São Paulo, quando a região ainda crescia sem asfalto e sem hospital. Ali ficou por mais de quarenta anos. A Clínica Médica Campo Limpo, na Rua Dr. Avelino Lemos Jr., 67, atendia "adultos e crianças, cirurgia e clínica geral", como dizia o anúncio.

Uma foto colada no álbum da família tem a legenda "Pedro no consultório onde mais gostava de estar". Foi de lá que escreveu, entre 1992 e 2008, dezenas de artigos para o Jornal Zona Sul e outros periódicos: colesterol, diarreias, genéricos, convênios, emergências, saúde pública.

Também atendeu em Osasco, Franco da Rocha e Caieiras, e os nomes da Santa Casa de Misericórdia, do Hospital Albert Einstein e do Hospital Santa Paula aparecem nas lembranças de quem conviveu com ele.

Além da Medicina

Livros, viagens, gatos e uma casa cheia.

As fotografias mostram um homem cercado de gente: mesas de Natal, aniversários, amigos em poltronas, netos no colo, um cachorro e um gato disputando o mesmo colo. Em 1993, um trem o levou a Florença; a foto, de boina e óculos vermelhos, lendo o jornal, ganhou legenda na letra da família.

Uma professora de inglês que teve Pedro como aluno escreveu, anos depois, que ele "não falava sobre espiritualidade, mas a vivia na prática, com seu jeito gentleman de ser". Uma frase atribuída a um padre amigo resume a impressão que ele deixava: "Eu sei que sou o padre, mas o sacerdote é o Pedro."

Bragança Paulista, 2010

Pedro morreu em 17 de fevereiro de 2010, em Bragança Paulista, aos 74 anos e cinco meses. A missa de sétimo dia foi celebrada no Campo Limpo em 25 de fevereiro. Parentes, amigos e pacientes leram uma homenagem escrita à mão, hoje preservada neste memorial, que o chama de "o médico de corpo e alma".

Em 2010 e 2011, notas na Folha de S.Paulo registraram missas em sua memória. Todo 10 de setembro, antigos alunos e pacientes ainda escrevem sobre ele.

Cronologia

Datas, lugares e permanências.

  1. 10 de setembro

    Nasce em Piracicaba, São Paulo

    Sexto filho de Maria Luiza Moretti Guedes e José Anthero Guedes, ferroviário. A certidão é lavrada em 26 de setembro no distrito do Bom Retiro, na capital, com carimbo da Caixa dos Ferroviários Estaduais.

  2. Batizado

    A fotografia do batizado, no colo da madrinha Georgina, é a imagem mais antiga do acervo.

  3. CPOR e natação

    Forma-se no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva. Na mesma época, é técnico de natação e integra o Conselho Técnico da Federação Paulista de Natação.

  4. Forma-se em Medicina em Sorocaba

    Conclui o curso de Medicina, segundo reportagem histórica preservada pela família.

  5. Hospital das Clínicas e SAMDU

    Residência médica no Hospital das Clínicas de São Paulo. Em seguida, cerca de três anos no Serviço de Assistência Médica Domiciliar de Urgência.

  6. Chega ao Campo Limpo

    Instala-se na zona sul de São Paulo e inicia uma relação com o bairro que atravessaria mais de quatro décadas.

  7. Cirurgia, clínica e docência

    Cirurgião de adultos e crianças na Clínica Médica Campo Limpo. Professor de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Abdominal na Universidade São Francisco, em Bragança Paulista.

  8. Série "Colesterol Mata?"

    Publica no Jornal Zona Sul os primeiros textos de educação em saúde preservados no acervo.

  9. Viagem a Florença

    Uma fotografia no trem, "A caminho de Firenze 1993", registra a viagem à Itália.

  10. "Médico atua no bairro há 30 anos"

    O Diário Popular publica matéria sobre sua longa atuação no Campo Limpo e sua prática como médico de família.

  11. Produção editorial intensa

    Escreve sobre genéricos, convênios, saúde pública, emergências, laboratório e prevenção. Em 2005, a Imprensa Oficial de Osasco o lista entre os médicos do município.

  12. 18 de outubro

    Reminiscências de um Médico

    A família reúne histórias, artigos, documentos e fotografias em uma compilação datada.

  13. 17 de fevereiro

    Falece em Bragança Paulista

    Aos 74 anos e cinco meses. A missa de sétimo dia é celebrada no Campo Limpo em 25 de fevereiro, com uma homenagem lida por parentes, amigos e pacientes.

  14. Missas em sua memória

    Notas na Folha de S.Paulo registram celebrações em sua lembrança no Campo Limpo e em outras localidades.

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Quem criou este memorial

Felipe Guedes não conviveu com o pai. Conhece Pedro pelas histórias, e o ama por elas. O que mais guarda é o médico que atendia de graça quem não podia pagar: um jeito de olhar para as pessoas, e não para o dinheiro, que Felipe leva consigo.

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