Pedro Moretti GuedesMemorial · 1935–2010
De filho para pai

Felipe Guedes.

Engenheiro de Software e Arquiteto de Sistemas. Especialista em System Design: desenha sistemas que aguentam o mundo real. Constrói tecnologia para acelerar a ciência. Filho de Pedro. Autor deste memorial.

“Algumas histórias não continuam pelo tempo que tiveram. Continuam pelo que passaram a significar.”

Sobre a criação deste memorial

O pai que conheceu na adolescência.

Felipe conheceu Pedro aos quinze anos. Até aquele momento, segundo seu relato, o pai não sabia de sua existência. A aproximação aconteceu depois de uma busca conduzida com a participação de Marilu, uma das pessoas que fizeram parte de sua criação.

Uma visita à clínica permaneceu com nitidez. Durante cerca de duas horas, pai e filho conversaram. Felipe recorda Pedro falando sobre bondade e sobre a maneira de conduzir a vida. Recorda também uma pergunta simples: o que ele queria ser quando crescesse?

Respondeu que queria ser advogado. Havia naquela resposta o desejo de impressionar o pai e de apresentar um futuro que lhe parecesse importante. A Medicina, naquele momento, parecia distante das possibilidades que conseguia enxergar.

Da despedida ficaram um abraço, o táxi chamado pelo pai e um chiclete Trident. Detalhes pequenos, guardados porque aquela convivência quase não teve tempo de se tornar cotidiana.

Pouco depois, Pedro morreu. Felipe soube do falecimento quando já não havia a possibilidade de uma despedida. O encontro havia sido breve; sua importância, não.

Crescer também foi aprender a reconhecer quem estendeu a mão.

Na infância, Felipe viveu sob os cuidados de diferentes pessoas. Dilza e Carlos o acolheram em uma família que já tinha oito filhos e poucos recursos. Marilu esteve presente em etapas importantes. Etelvina, Seu Mário e outras pessoas também fizeram parte dessa rede de cuidado.

Essa história contém ausências, mudanças e responsabilidades que chegaram cedo. Contá-la não significa transformar dificuldade em espetáculo. Significa reconhecer que ninguém se constrói sozinho e que cada gesto de acolhimento participa do que uma pessoa consegue se tornar.

Da gráfica e da eletrônica à tecnologia.

Por volta dos doze anos, Felipe começou a aprender produção gráfica na Arte Final, com Samuel. Teve contato com CorelDRAW e FlexiSIGN, passou a criar peças e acompanhou o corte e a aplicação de adesivos. Ali percebeu como uma necessidade descrita pelo cliente podia ganhar forma e identidade.

Mais tarde, na Gradualtec, aprendeu com Val a trabalhar com reparos eletrônicos. Observava, perguntava e praticava. Essa maneira de aprender atravessou comunicação visual, eletrônica, marketing, experiência do usuário e desenvolvimento de software. Ser autodidata, para ele, nunca significou aprender sem pessoas.

Construir, perder e começar outra vez.

Ainda adolescente, Felipe começou a sustentar a própria moradia. Trabalhou em autopeças, eventos, pintura e construção civil. Cursou três anos de Biomedicina na FMU; a área da saúde voltou a se aproximar de sua história, mas a necessidade de se manter tornou inviável o estágio final não remunerado. O curso não foi concluído.

Em 2018, mudou-se para Toledo, no Paraná. Novos vínculos abriram espaço para trabalhos em marketing e tecnologia e, depois, para o empreendedorismo. Foi nesse período que conheceu Natália, hoje sua esposa.

Com a pandemia de 2020, contratos foram perdidos em sequência. Ao sair do prédio onde trabalhava, Felipe destrancou a bicicleta, percorreu alguns metros e voltou para guardá-la. Preferiu caminhar até em casa. Precisava de tempo para chorar e para encontrar uma forma de conversar com Natália, que estava grávida. Não encontrou cobrança. Encontrou alguém disposto a atravessar o recomeço ao seu lado, e uma sogra, Iara, que acolheu a família.

A reconstrução veio em dias comuns: contas reorganizadas, trabalho retomado, decisões tomadas sem certeza de que dariam certo. Felipe reconhece nesse período a força da família, das pessoas que permaneceram e da fé cristã que passou a ocupar um lugar importante em sua vida.

Uma contribuição com linguagem própria.

Hoje, Felipe é Engenheiro de Software e Arquiteto de Sistemas, especialista em System Design. O que mais gosta de fazer é exatamente isso: decidir como um sistema se organiza, escala e falha com segurança antes de escrever a primeira linha. Em fgxdev.com, reúne arquitetura de software, System Design, produtos digitais e experiência do usuário: entender pessoas, organizar problemas complexos e transformar ideias em sistemas que funcionam.

A pergunta que Pedro fez na clínica nunca recebeu uma resposta definitiva. Felipe não se tornou advogado, como disse ao pai. Também não se tornou médico. Encontrou na tecnologia uma terceira resposta: construir ferramentas capazes de chegar onde ele, sozinho, não chegaria.

Dessa resposta nasceu a motivação para a ELUCENIA, um projeto de inteligência artificial para descoberta científica que começa pelo campo cardiovascular. A convicção é simples: se o pai dedicou a vida a cuidar de pessoas por meio da Medicina, o filho pode usar software, dados e IA para ampliar a capacidade de pesquisadores e médicos. Cada hipótese precisará de evidência; cada avanço, de validação científica; cada decisão, de responsabilidade humana.

O filho que ainda conversa com o pai.

Felipe teve poucas horas diante de Pedro. Restaram documentos, fotografias, histórias contadas por outras pessoas e a lembrança daquela conversa. Construir este memorial foi uma forma de reunir essas partes sem fingir que elas substituem o tempo perdido.

Ao organizar os artigos, os relatos e as passagens da vida de Pedro, Felipe passou a conhecê-lo pelo modo como tratava as pessoas: o atendimento a quem não podia pagar, o respeito diante da dor alheia, a responsabilidade com a profissão. Talvez essa seja a resposta adulta à pergunta feita na clínica. Felipe não escolheu a profissão do pai. Escolheu carregar adiante o princípio que encontrou nele: conhecimento só encontra sentido quando melhora a vida de alguém.

A história que originou este projetoConheça Pedro Moretti Guedes