O menor paciente
Uma criança de dois anos e oito meses, uma barriga distendida e uma decisão cirúrgica que ele nunca esqueceu.
“Foi o meu paciente de menor idade.”Ler este conto
Médico, cirurgião e professor. Por mais de quarenta anos, atendeu quem batia à porta do consultório no Campo Limpo, em São Paulo, sem perguntar quem podia pagar.
Role para conhecer
“Você não sabe da vida dela, então não a critique.”
Pedro Moretti Guedes, a quem criticou uma paciente que não pagava a consulta
Sexto filho de um ferroviário, formou-se em Sorocaba em 1963, fez residência no Hospital das Clínicas, operou, ensinou cirurgia, escreveu para jornais de bairro e treinou nadadores. Este memorial reúne o que a família guardou: fotografias, documentos, textos e as histórias que ele mesmo contava.
A consulta particular não era barata. Mesmo assim, quando alguém sem condições chegava à clínica, Pedro atendia com o mesmo cuidado, sem cobrar nada. Não fazia disso bandeira: fazia disso rotina. Dinheiro nunca foi o motivo. As pessoas eram.
A mulher que nem sempre pagava a consulta continuou sendo recebida. A crítica recebeu uma frase, não uma cobrança.
"Não se importava com a classe alta ou baixa; o importante para ele era a recuperação do paciente", escreveram seus pacientes.
Um abraço na porta, música clássica, café e paciência para ouvir um por um. "Às vezes nem precisamos de remédio."
Diante de um diagnóstico difícil de meningite, atribuiu o acerto à mãe atenta que insistiu que algo estava errado.
A biografia, da certidão de 1935 ao consultório onde mais gostava de estar.
02Dez episódios que ele contava: o menor paciente, a mãe que percebeu a meningite, a farmácia.
03Hospital das Clínicas, SAMDU, cirurgia, docência e a defesa de um atendimento humano.
04Vinte e quatro textos de saúde pública e prevenção publicados entre 1992 e 2008.
05Trinta e duas fotografias e onze documentos tratados para preservação.
06O que pacientes, amigos e alunos escreveram sobre ele.
Nas reminiscências que deixou, Pedro raramente falava de técnica. Falava de pessoas: uma mãe atenta, um senhor russo de 96 anos, um motorista que não conseguiu salvar.
Uma criança de dois anos e oito meses, uma barriga distendida e uma decisão cirúrgica que ele nunca esqueceu.
“Foi o meu paciente de menor idade.”Ler este conto
No outro extremo da idade, um senhor de 79 anos chega com apendicite. Anos depois, vai procurá-lo em São Paulo.
“Recebi um paciente idoso, 79 anos, com apendicite.”Ler este conto
Um pronto-socorro vazio, uma ambulância, uma jovem com dor abdominal intensa e a rapidez que a urgência exige.
“Num PS vazio, às 2 horas da manhã...”Ler este conto
Um motorista baleado que ele reconhece de uma visita ao hospital, dias antes, quando o homem acompanhava a esposa e o filho recém-nascido.
“Foi a primeira vez que chorei com a morte de um paciente.”Ler este conto
Um consultório pequeno em cima de uma padaria, um senhor de 96 anos com fratura de fêmur e o encaminhamento que fez o bairro confiar no médico novo.
“A partir daí "choveram" clientes.”Ler este conto
Um paciente procura tratamento para emagrecer. O exame físico revela alterações pulmonares. O diagnóstico é tuberculose.
“Um tempo depois, ele veio ao meu consultório e chorou.”Ler este conto
Uma mulher que trazia a criança ao consultório e nem sempre pagava. Diante de uma crítica, Pedro respondeu com a frase que resume seu jeito.
“Você não sabe da vida dela, então não a critique.”Ler este conto
Uma criança de três anos piora depressa. O exame não mostra sinais evidentes, mas a mãe insiste. Pedro escuta, encaminha ao Emílio Ribas, e o diagnóstico é meningite.
“Foi a senhora, boa e cuidadosa mãe, quem me despertou para a gravidade da doença.”Ler este conto
Chamado às pressas a uma farmácia, encontra uma mulher caída após uma reação alérgica. Atendimento imediato, medidas de emergência e um abraço de alívio.
“A farmacêutica me abraçou e me beijou.”Ler este conto
Uma frase atribuída a um padre amigo resume a impressão que a dedicação de Pedro causava em quem o via trabalhar.
“Eu sei que sou o padre, mas o sacerdote é o Pedro.”Ler este conto

Pedro chegou ao Campo Limpo em 1967. Em 1998, o Diário Popular contava que ele já atendia o bairro havia trinta anos, como clínico, cirurgião de adultos e crianças e médico de família. O consultório da Clínica Médica Campo Limpo ficava na Rua Dr. Avelino Lemos Jr., 67.
Campo Limpo e PedroCada marco abaixo tem uma fonte: certidão, reportagem, recorte ou registro familiar.
Sexto filho de Maria Luiza Moretti Guedes e José Anthero Guedes, ferroviário. A certidão é lavrada em 26 de setembro no distrito do Bom Retiro, na capital, com carimbo da Caixa dos Ferroviários Estaduais.
Conclui o curso de Medicina, segundo reportagem histórica preservada pela família.
Instala-se na zona sul de São Paulo e inicia uma relação com o bairro que atravessaria mais de quatro décadas.
Cirurgião de adultos e crianças na Clínica Médica Campo Limpo. Professor de Técnica Cirúrgica e Cirurgia Abdominal na Universidade São Francisco, em Bragança Paulista.
A família reúne histórias, artigos, documentos e fotografias em uma compilação datada.
Aos 74 anos e cinco meses. A missa de sétimo dia é celebrada no Campo Limpo em 25 de fevereiro, com uma homenagem lida por parentes, amigos e pacientes.
Na missa de sétimo dia, em 25 de fevereiro de 2010, parentes, amigos e pacientes leram uma homenagem escrita à mão. Ela começa assim:
Ler as homenagensFelipe Guedes não conviveu com o pai. Conhece Pedro pelas histórias, e o ama por elas. O que mais guarda é o médico que atendia de graça quem não podia pagar: um jeito de olhar para as pessoas, e não para o dinheiro, que Felipe leva consigo.
Conhecer Felipe Guedes